DESACELERAÇÃO DA INFLAÇÃO vs REDUÇÃO GENERALIZADA DOS PREÇOS
Trajectória de desaceleração aproxima inflação da projecção do BNA, mas alimentação continua entre os principais focos de pressão sobre os preços
A inflação em Angola aproxima-se do nível projectado pelo Banco Nacional de Angola (BNA) para o encerramento de 2026. Em Agosto, a inflação homóloga fixou-se em 8,78%, ficando apenas 0,18 ponto percentual acima dos 8,6% projectados pelo banco central para o final do ano. A trajectória dos últimos meses reforça a tendência de desaceleração, mas o comportamento dos preços exige uma distinção importante: uma inflação mais baixa não significa que os preços estejam a baixar de forma generalizada.
Os dados mostram uma redução consistente do ritmo de crescimento dos preços. Em Junho, a inflação homóloga estava em 10,11%, passou para 9,33% em Julho e chegou aos 8,78% em Agosto. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, a desaceleração é ainda mais expressiva: em Agosto de 2025, a inflação situava-se em 18,88%, contra 8,78% um ano depois, representando uma redução de 10,09 pontos percentuais.
O resultado coloca a inflação muito próxima da previsão estabelecida pelo BNA para Dezembro. No entanto, o indicador deve ser interpretado correctamente. Quando a inflação desacelera, significa que os preços continuam a aumentar, mas a um ritmo inferior ao observado anteriormente. Não significa, necessariamente, que os preços tenham recuado.
Esta diferença é particularmente relevante para as famílias. Se um produto aumentava de preço a determinado ritmo e passa a aumentar mais lentamente, a inflação desse produto diminuiu, mas o preço continua superior ao período anterior. Uma redução generalizada dos preços seria outro fenómeno, associado à queda efectiva do nível de preços.
A evolução da inflação tem permitido também uma alteração gradual das condições monetárias. Na reunião de 15 de Setembro, o Comité de Política Monetária decidiu reduzir a Taxa BNA de 15,75% para 14,75%, enquanto o coeficiente de reservas obrigatórias em moeda nacional foi reduzido em um ponto percentual. Segundo o BNA, a decisão teve como fundamento o progresso observado na trajectória da inflação e as perspectivas para o curto e médio prazo.
A medida sinaliza uma maior margem para flexibilização monetária, depois de um período marcado por condições mais restritivas. Ainda assim, a evolução dos preços continua a exigir acompanhamento, sobretudo porque a desaceleração da taxa geral não ocorre de forma uniforme entre todas as classes de consumo.
É precisamente nesse ponto que surge uma das principais diferenças entre a leitura macroeconómica da inflação e a percepção quotidiana dos consumidores. Em Agosto, Educação apresentou uma inflação homóloga de 19,33%, enquanto Alimentação e bebidas não alcoólicas registou 9,94% e Saúde, 9,66%. A alimentação, em particular, foi a classe que mais contribuiu para a inflação geral, com 6,01 pontos percentuais.
Ou seja, embora a inflação nacional tenha descido para 8,78%, determinados bens e serviços continuam a registar aumentos significativamente superiores à média. Para uma família que concentra grande parte do seu rendimento em alimentação, saúde, educação e outros bens essenciais, a experiência do aumento do custo de vida pode, por isso, ser diferente daquela sugerida pelo indicador agregado.
QUE MEDIDAS PODEM LEVAR A UMA MODERAÇÃO MAIS EFECTIVA DOS PREÇOS?
A desaceleração registada abre espaço para uma discussão que vai além da taxa de inflação. Se o objectivo é não apenas reduzir o ritmo de crescimento dos preços, mas também diminuir a pressão sentida pelas famílias, torna-se necessário avaliar a eficácia dos instrumentos disponíveis.
Que medidas adicionais o Banco Nacional de Angola poderá adoptar para garantir que a actual desaceleração da inflação se traduza numa moderação mais efectiva dos preços, sobretudo dos bens essenciais?
A questão ganha particular relevância num cenário em que alimentação, saúde e educação continuam a apresentar taxas de inflação superiores à média nacional. A política monetária pode influenciar a procura, a liquidez, o crédito e as expectativas de inflação, mas a evolução dos preços também depende de factores relacionados com a oferta, os custos de produção, a logística, o mercado cambial e a disponibilidade de bens.
Daí surge uma segunda questão:
Até que ponto a política monetária — através das taxas de juro, reservas obrigatórias e instrumentos cambiais — poderá continuar a ser flexibilizada sem comprometer a trajectória de desinflação alcançada?
Encontrar esse equilíbrio será determinante. Uma flexibilização monetária pode contribuir para melhorar as condições de financiamento da economia, mas deverá ser acompanhada pela evolução dos preços e das expectativas, de modo a evitar que novas pressões interrompam a trajectória descendente da inflação.
O DESAFIO DOS 8,6%
Com a inflação homóloga em 8,78% em Agosto, a distância para os 8,6% previstos pelo BNA no final de 2026 é pequena. Mas a proximidade da meta não significa que o resultado esteja automaticamente assegurado.
Os dados de Setembro, Outubro, Novembro e Dezembro serão determinantes para perceber se a trajectória continuará descendente. A evolução dos alimentos terá particular importância devido ao seu peso no índice e ao impacto directo no orçamento das famílias.
A política monetária terá, por isso, de encontrar um equilíbrio entre duas necessidades: permitir condições financeiras menos restritivas à medida que a inflação desacelera e, simultaneamente, evitar que uma flexibilização excessiva reforce as pressões sobre os preços.
O desafio consiste em fazer com que a desinflação seja sustentável, e não apenas temporária.
DE 18,88% PARA 8,78%: O QUE VEM A SEGUIR?
A queda da inflação de 18,88% em Agosto de 2025 para 8,78% em Agosto de 2026 representa uma alteração expressiva no ritmo de crescimento dos preços em Angola. Em apenas um ano, a taxa caiu mais de dez pontos percentuais.
Mas esta evolução não deve ser confundida com uma queda generalizada do custo dos produtos e serviços.
Angola está a assistir a uma desaceleração da inflação, não a uma redução generalizada dos preços.
É essa diferença que será determinante na leitura económica do final de 2026. De um lado, os indicadores apontam para uma inflação significativamente inferior à observada há um ano e cada vez mais próxima da previsão do BNA. Do outro, classes essenciais continuam a apresentar aumentos acima da média nacional, mantendo a pressão sobre o consumo das famílias.
A questão para os próximos meses será, por isso, dupla: a inflação conseguirá atingir os 8,6% projectados pelo BNA? E que medidas poderão fazer com que essa desinflação seja acompanhada por uma moderação mais efectiva dos preços pagos pelas famílias?
Os últimos meses de 2026 serão determinantes para perceber se Angola encerrará o ano apenas com uma taxa de inflação mais baixa ou se a desaceleração será também acompanhada por uma melhoria mais perceptível das condições de consumo.
Escrito por
Redação Clube De Valor