TAL PAI, TAL FILHO… A DINASTIA FREITAS
Jaime Freitas construiu, ao longo de décadas, um dos mais relevantes grupos empresariais privados ligados ao sector automóvel em Angola. Mico Freitas representa hoje uma nova geração perante o desafio de preservar, modernizar e expandir um legado construído muito antes da era da digitalização e da mobilidade eléctrica.
Há legados empresariais que não se medem apenas pelo património acumulado.
Medem-se pelo número de ciclos económicos atravessados, pela capacidade de sobreviver às mudanças do mercado e, sobretudo, pela possibilidade de uma nova geração receber uma empresa construída pelo fundador e conseguir levá-la para uma nova época.
É neste ponto que se encontra a história dos Freitas.
JAIME FREITAS: O CONSTRUTOR
Nascido no Lubango, em 1950, Jaime Freitas começou a sua vida profissional longe do universo que viria a construir. Formou-se no Instituto Comercial do Lubango, trabalhou como professor e passou cerca de 17 anos ligado ao sector petrolífero.
A experiência empresarial ganhou outra dimensão em 1992, quando entrou como sócio na Cosal, empresa que viria a assumir sob a sua liderança.
Em 1996, passou a dirigir a organização e iniciou uma fase de expansão que transformaria a Cosal numa estrutura empresarial diversificada.
O crescimento acelerou sobretudo depois de 2002, quando Angola entrou num novo ciclo económico. O grupo expandiu actividades, marcas e geografias, aproveitando o crescimento do mercado automóvel e a procura por novos serviços.
DO AUTOMÓVEL PARA UM GRUPO DIVERSIFICADO
O automóvel permaneceu no centro da actividade.
A Cosal construiu uma posição relevante na representação, comercialização e assistência de marcas internacionais, incluindo Hyundai, Mercedes-Benz, Mitsubishi, Fuso, Suzuki e Yamaha, entre outras actividades relacionadas com mobilidade, equipamentos, peças e lubrificantes.
Mas Jaime Freitas não ficou limitado a esse sector.
O grupo avançou para hotelaria, turismo, restauração, construção, seguros, imobiliário e serviços financeiros, criando uma carteira de negócios mais diversificada.
A estratégia também ultrapassou Angola.
A família passou a deter interesses em Portugal, incluindo uma participação de 50% no grupo automóvel MCoutinho, e desenvolveu investimentos ligados ao turismo na Namíbia.
A Cosal deixou, assim, de ser apenas uma empresa automóvel.
Tornou-se um ecossistema empresarial familiar.
O CAPITAL DA EXPERIÊNCIA
A construção desse grupo exigiu mais do que capital.
Exigiu conhecimento de mercado, capacidade de negociação, gestão de risco e, principalmente, capacidade de atravessar períodos de instabilidade.
Jaime Freitas construiu a sua trajectória essencialmente no sector privado, num país que passou por guerra, reconstrução, crescimento acelerado, crise económica e profundas alterações regulatórias.
Essa experiência constitui hoje uma parte importante do legado transmitido à nova geração.
ENTRA MICO FREITAS
É neste contexto que surge Mico Freitas.
Filho de Jaime, Mico integra a geração que participa na continuidade dos negócios da família e que encontra uma estrutura empresarial já consolidada.
A sua exposição pública aumentou também através da ligação internacional a Portugal e ao Brasil, mas o seu percurso empresarial está associado à própria estrutura familiar e ao Grupo Cosal.
A questão central, porém, não é simplesmente saber quem sucede ao fundador.
É saber como uma nova geração conduz uma empresa criada noutra época.
O DESAFIO DA NOVA GERAÇÃO
Quando Jaime Freitas consolidou a Cosal, o sector automóvel dependia essencialmente de concessionários, redes físicas, importação e assistência.
Hoje, o sector está a mudar.
A digitalização altera a relação com o consumidor. A mobilidade eléctrica começa a ganhar espaço. Novos modelos de financiamento e utilização de veículos estão a surgir. A concorrência tornou-se mais internacional.
Para a Cosal, isso significa que preservar o legado exige também reinventar o negócio.
A nova geração terá de responder a uma pergunta decisiva:
como transformar décadas de experiência acumulada numa vantagem competitiva para as próximas décadas?
UM LEGADO QUE PRECISA DE EVOLUIR
É aqui que a sucessão de Jaime para Mico ganha significado.
Jaime Freitas construiu.
Mico recebe uma estrutura que precisa de continuar a crescer.
O pai enfrentou o desafio de criar e consolidar.
O filho enfrenta o desafio de modernizar e preparar.
Não se trata, portanto, de substituir uma geração por outra.
Trata-se de fazer com que duas gerações empresariais se encontrem num mesmo projecto.
A primeira trouxe a experiência da construção.
A segunda traz novas ferramentas, novos mercados e uma nova relação com tecnologia e consumidores.
TAL PAI, TAL FILHO
A verdadeira dimensão da Dinastia Freitas não está apenas no nome, nas empresas ou no património.
Está na capacidade de transmitir uma mentalidade empresarial.
Jaime Freitas construiu o Grupo Cosal num ambiente económico completamente diferente do actual.
Mico Freitas representa agora uma geração que terá de provar que sabe fazer mais do que preservar aquilo que recebeu.
Terá de encontrar novas oportunidades, enfrentar novas ameaças e manter competitiva uma estrutura construída durante décadas.
Porque o maior teste de uma empresa familiar não acontece quando o fundador está no comando.
Acontece quando chega o momento de provar que o legado consegue sobreviver ao fundador.
E é nessa passagem — entre a construção de um império empresarial e a responsabilidade de reinventá-lo — que se escreve a próxima página da Dinastia Freitas.
Escrito por
Redação Clube De Valor