Economia & Negócios

O LEGADO DOS IRMÃOS VALENTIM E SEGUNDA AMÕES

Por Redação Clube De Valor · 08/10/2026 · 7 min de leitura
O LEGADO DOS IRMÃOS VALENTIM E SEGUNDA AMÕES

Houve uma geração de empresários angolanos que cresceu no período de transição para a paz e percebeu cedo que a reconstrução do país também criaria espaço para grandes negócios. Entre esses nomes estiveram dois irmãos nascidos no Huambo: Valentim Amões e António Segunda Amões.

Seguiram caminhos diferentes, construíram patrimónios empresariais distintos e morreram relativamente jovens. Depois das suas mortes, porém, ficou uma questão comum: o que acontece a um grande grupo económico quando desaparece a pessoa que concentrava a sua visão, as relações e a capacidade de decisão?

No caso de Valentim, a resposta passou por uma sucessão marcada por conflitos familiares e processos judiciais. No de Segunda, o principal legado ficou associado a um projecto de desenvolvimento rural que procurava transformar a sua aldeia natal num modelo para outras comunidades angolanas.

Valentim Amões: negócios, política e influência

Valentim Amões tornou-se uma das figuras empresariais mais conhecidas do Huambo no período pós-guerra. Fundou e liderou o Grupo Valentim Amões (GVA), um conjunto empresarial com interesses em áreas como construção civil, transportes, hotelaria, indústria, comércio, aviação, diamantes e banca.

Fontes da época referem que o grupo chegou a reunir cerca de 31 empresas. Entre os negócios associados ao GVA estavam a Sefa, ligada à produção e distribuição de Coca-Cola no Huambo, a Tropicana, na área do turismo e hotelaria, a Movimento Rodoviário Nacional, nos transportes, e a Marinela Comercial.

A dimensão do grupo explica, em parte, a influência alcançada por Valentim. Mas a sua trajectória não ficou limitada aos negócios. Antes de se aproximar do MPLA, esteve ligado à UNITA. Mais tarde integrou o MPLA e chegou ao Comité Central do partido. Essa passagem deu-lhe uma posição singular numa época em que as relações entre política, reconstrução nacional e actividade empresarial tinham enorme peso.

Em Janeiro de 2008, aos 48 anos, Valentim morreu num acidente aéreo na Serra de Mbave, no Huambo. O aparelho em que seguia embateu nas montanhas e provocou 13 mortes. Entre as vítimas estavam familiares e empresários portugueses.

A morte interrompeu uma trajectória empresarial ainda em expansão.

O património que ficou

O problema seguinte foi menos empresarial do que sucessório.

Valentim deixou vários herdeiros, incluindo menores. A Justiça instaurou um processo de inventário e nomeou a filha primogénita, Lídia Amões, como cabeça de casal da herança. Poucos anos depois, alguns co-herdeiros apresentaram denúncias contra a administradora, alegando que bens da herança estavam a ser alienados em benefício próprio e de terceiros.

A Procuradoria-Geral da República abriu posteriormente um processo-crime. Num documento oficial, a PGR registou as denúncias e indicou que Lídia Amões havia sido constituída arguida por suspeitas que incluíam corrupção activa, abuso de confiança, falsificação de documentos e branqueamento de capitais.

Lídia contestou as acusações e afirmou ter sido alvo de perseguição no contexto da disputa sucessória. Em 2016, chegou a ficar detida preventivamente e acabou libertada por habeas corpus. Anos depois, acusou judicialmente um magistrado de abuso de poder, alegação que também foi noticiada pela imprensa.

O episódio tornou-se um dos exemplos mais conhecidos em Angola de como a ausência de uma sucessão empresarial clara pode transformar um património construído ao longo de décadas numa disputa prolongada.

Há, por isso, uma distinção importante: o valor económico do antigo GVA e a fortuna pessoal de Valentim não devem ser confundidos. As fontes consultadas descrevem a dimensão dos negócios e dos activos, mas não permitem estabelecer, com segurança, um valor actualizado da fortuna pessoal do empresário.

Segunda Amões: outro modelo de construção empresarial

António Segunda Amões seguiu uma trajectória diferente.

Formado em Geologia de Petróleos na antiga União Soviética, com estudos posteriores em Direito, Gestão e Economia, construiu a sua carreira empresarial sobretudo a partir da década de 1990. Em 1997, assumiu a liderança do Grupo ASAS, que passou a operar em áreas como construção civil, imobiliário, transportes e equipamentos pesados.

O grupo ganhou dimensão também fora de Angola, sobretudo na África do Sul, onde Segunda Amões investiu em construção e hotelaria.

Em entrevista ao Valor Económico, em 2017, afirmou que o conglomerado registava uma facturação anual superior a 200 milhões de dólares e que pretendia investir 400 milhões de dólares no projecto de desenvolvimento da sua terra natal.

É aqui que o percurso dos dois irmãos começa a divergir.

Valentim tornou-se conhecido pela amplitude e pela influência do seu grupo empresarial. Segunda passou a associar cada vez mais a sua actividade empresarial a um projecto social de longo prazo.

Camela Amões: quando o património regressa à origem

Em 2014, Segunda Amões começou a desenvolver na aldeia Camela Amões, no Huambo, um projecto que pretendia transformar a comunidade rural num modelo de desenvolvimento.

O plano abrangia cerca de 40 mil hectares e previa milhares de habitações, escolas, centro médico, igrejas, energia, produção agrícola e estruturas industriais. O investimento estimado para a primeira fase rondava os 400 milhões de dólares.

O conceito tinha uma preocupação concreta: criar condições para que as populações permanecessem no campo, com habitação, educação, saúde e actividade económica.

Segunda Amões chegou a falar na possibilidade de replicar o modelo noutras regiões do país. Em vez de concentrar o investimento apenas em activos urbanos, procurava transformar parte da riqueza acumulada através dos negócios num projecto territorial de longo prazo.

Era uma ambição difícil de executar. E ficou incompleta.

Duas mortes, dois destinos para o legado

Segunda Amões morreu em 4 de Dezembro de 2020, na África do Sul, aos 51 anos, depois de uma doença.

A sua morte ocorreu 12 anos depois da de Valentim, mas deixou uma diferença fundamental. Enquanto a história pós-morte de Valentim ficou fortemente marcada pela disputa sobre a administração e partilha do património, o nome de Segunda ficou particularmente ligado à experiência da Camela Amões.

Isso não significa que a sucessão empresarial de Segunda tenha sido simples ou que todos os seus projectos tenham sido concluídos. Significa apenas que, no plano público, o seu legado ganhou uma expressão que ultrapassava os resultados financeiros do Grupo ASAS.

Os dois irmãos representam, assim, duas dimensões de uma mesma geração empresarial.

Valentim construiu poder económico através de uma carteira diversificada de negócios e aproximou-se também da política. Segunda construiu um grupo empresarial de grande dimensão, mas procurou posteriormente canalizar parte dessa capacidade para um projecto de desenvolvimento rural.

O que permanece

Mais de uma década depois da morte de Valentim e cinco anos depois da morte de Segunda, o aspecto mais relevante da história dos irmãos Amões talvez esteja menos nos números dos seus patrimónios do que na dificuldade de transformar património em legado duradouro.

O caso de Valentim mostra como um grupo empresarial fortemente dependente do seu fundador pode ficar vulnerável quando a sucessão não está suficientemente estruturada. O conflito em torno da herança, documentado em processos judiciais e na actuação da PGR, acabou por se sobrepor à própria história empresarial do GVA.

Segunda deixou outro tipo de referência. A Aldeia Camela Amões tornou-se a expressão mais visível da sua tentativa de ligar empreendedorismo, património privado e desenvolvimento comunitário. O projecto não eliminou os desafios de execução, financiamento e continuidade, mas deixou uma ideia concreta sobre o papel que empresários privados podem desempenhar fora dos grandes centros urbanos.

A história dos irmãos Amões é, por isso, também uma história sobre Angola. Sobre uma economia que, depois da guerra, criou grandes oportunidades de acumulação empresarial. Sobre empresários que construíram grupos em sectores diferentes. E sobre um problema que continua actual: construir uma empresa é uma coisa; garantir que ela sobrevive ao seu fundador é outra.

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