TOP'5 — MINISTROS EM DESTAQUE | 2026
Em 2026, a economia angolana atravessa uma fase em que a discussão deixou de estar limitada à recuperação do petróleo. Crescimento económico, produção nacional, segurança alimentar, investimento energético, turismo e corredores logísticos passaram a ocupar o centro da agenda.
No segundo trimestre, o Produto Interno Bruto de Angola cresceu 8,74% em termos homólogos, enquanto o sector não petrolífero avançou 9,24% e o petrolífero 5,64%. Em Agosto, a inflação homóloga situou-se em 8,78%. São números que ajudam a dimensionar o ambiente económico em que as decisões governamentais estão a ser tomadas.
É neste contexto que o Clube De Valor identifica cinco titulares de pastas particularmente relevantes para os grandes vectores económicos de 2026: José de Lima Massano, Isaac dos Anjos, Diamantino Azevedo, Márcio Daniel e Ricardo Viegas D'Abreu.
Mais do que uma classificação de desempenho, esta é uma radiografia das decisões, projectos e sectores sob sua responsabilidade e da dimensão económica que essas agendas representam.
01 — JOSÉ DE LIMA MASSANO
COORDENAÇÃO ECONÓMICA: O HOMEM NO CENTRO DA MACROECONOMIA
Como Ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano ocupa uma posição transversal na condução da política económica do Executivo.
Um dos principais instrumentos sob a sua esfera de coordenação foi o OGE 2026, aprovado com receitas e despesas de 33,2 biliões de kwanzas. O orçamento foi construído com uma previsão de preço médio do petróleo de 61 dólares por barril, produção de 1,05 milhão de barris por dia e crescimento real inicialmente projectado em 4,17%.
Mas a realidade económica de 2026 acabou por apresentar números superiores à previsão orçamental: no segundo trimestre, o PIB cresceu 8,74%, com o sector não petrolífero a crescer 9,24%.
A relevância económica da pasta é evidente: decisões de política fiscal, ambiente de negócios, investimento e coordenação entre sectores acabam por determinar a capacidade de Angola transformar crescimento estatístico em actividade económica sustentável.
O indicador a acompanhar: crescimento não petrolífero, inflação, investimento privado, emprego e capacidade de execução do OGE.
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02 — ISAAC DOS ANJOS
AGRICULTURA: DA SUBSTITUIÇÃO DAS IMPORTAÇÕES À PRODUÇÃO COMERCIAL
A agricultura voltou a ocupar uma posição central na estratégia de diversificação económica.
Engenheiro agrónomo e com experiência governativa, Isaac dos Anjos lidera uma pasta cuja relevância ultrapassa a produção agrícola: envolve segurança alimentar, importações, divisas, emprego rural, indústria agroalimentar e potencial exportador.
Em Agosto, o Governo anunciou a disponibilização de 90 mil toneladas de fertilizantes para o arranque da campanha agrícola 2026/2027, com outras 27 mil toneladas previstas para Setembro e mais 27 mil em Novembro.
A estratégia anunciada pelo ministro também aponta para uma mudança de modelo: em vez de depender exclusivamente da distribuição gratuita de insumos, o Executivo pretende criar mecanismos de regulação de preços e transformar a agricultura numa actividade economicamente rentável.
Outro eixo é a preparação da produção angolana para mercados internacionais. O Ministério trabalha na adopção de padrões exigidos por mercados como a União Europeia, China e Médio Oriente, ao mesmo tempo que mantém programas ligados ao café, palmares, pecuária, sementes, plantas, bovinos, pintos e inseminação artificial.
O Governo também procura transformar a agricultura familiar, historicamente associada ao autoconsumo, numa actividade orientada para o mercado, com apoio de instituições como o Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento e FIDA.
Aqui, o verdadeiro impacto económico não será medido apenas pelo número de toneladas produzidas, mas pela capacidade de Angola reduzir importações, criar cadeias de valor, aumentar produtividade e gerar excedentes exportáveis.
O indicador a acompanhar: produção comercial, produtividade por hectare, importações alimentares, preços dos alimentos e exportações agroindustriais.
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03 — DIAMANTINO AZEVEDO
PETRÓLEO E GÁS: US$70 MIL MILHÕES EM JOGO
Se existe um sector capaz de alterar rapidamente a dimensão financeira da economia angolana, continua a ser o petróleo e gás.
À frente do Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo está associado à agenda de estabilização, investimento e renovação da produção petrolífera.
A AOG 2026, realizada em Setembro, colocou no centro da discussão a próxima fase de desenvolvimento do sector. Na abertura, a ANPG anunciou uma expectativa de mais de US$70 mil milhões em investimentos nos próximos cinco anos, com o objectivo de transformar atribuição de blocos em descobertas, desenvolvimento e produção.
O significado económico desse número é enorme.
Não representa dinheiro já injectado na economia, mas sim investimento previsto/mobilizável, cuja concretização dependerá de decisões de investimento, estabilidade regulatória, condições de financiamento, descobertas comerciais e execução dos projectos.
A AOG 2026 foi precisamente apresentada como uma plataforma para atrair capital, criar parcerias e converter projectos petrolíferos e de gás em produção e impacto económico.
A questão estratégica para Angola é, portanto, dupla: produzir petróleo suficiente para preservar receitas e, simultaneamente, usar o sector para desenvolver fornecedores nacionais, emprego especializado, serviços, tecnologia e capacidade industrial.
O indicador a acompanhar: investimento efectivamente realizado, produção diária, novas descobertas, gás produzido, conteúdo local e receitas fiscais.
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04 — MÁRCIO DANIEL
TURISMO: A TENTATIVA DE TRANSFORMAR POTENCIAL EM DIVISAS
O turismo está a tentar deixar de ser apresentado apenas como uma promessa de diversificação para se tornar uma actividade económica mensurável.
O ministro Márcio Daniel assumiu uma agenda marcada por reformas, promoção internacional e atracção de investimento. Entre os instrumentos em implementação estão o Planatur 2024–2027, Simplifica Turismo, Capacita Turismo, Planifica Turismo e medidas destinadas ao turismo marítimo, cruzeiros e eventos.
Os primeiros indicadores ajudam a explicar a importância da aposta.
Segundo dados apresentados pelo Ministério, Angola registou 223 mil chegadas internacionais em 2025, acima das 217 mil registadas em 2019. O Governo indicou ainda que as chegadas internacionais cresceram 30% em 2025, colocando Angola como o país africano com maior crescimento naquele indicador e quarto a nível mundial, segundo o Barómetro da ONU Turismo.
No turismo de lazer, os números divulgados pelo Governo passaram de 43.396 turistas em 2024 para 52.072 em 2025, um crescimento de aproximadamente 20%.
Em Junho, Luanda recebeu o Angola Investment Summit 2026, plataforma internacional destinada a mobilizar capital, promover parcerias público-privadas e apresentar oportunidades de investimento turístico.
A aposta ganha outra dimensão quando ligada ao Okavango-Zambeze, região que, segundo o Governo, movimenta mais de oito milhões de turistas por ano nos países abrangidos pela iniciativa. Angola procura integrar esse circuito através de infra-estruturas, produtos turísticos e cooperação regional.
O desafio é transformar visitantes em receitas, emprego, investimento privado e desenvolvimento territorial.
O indicador a acompanhar: turistas internacionais, receita turística, ocupação hoteleira, investimento privado, emprego e gasto médio por visitante.
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05 — RICARDO VIEGAS D'ABREU
CORREDOR DO LOBITO: QUANDO LOGÍSTICA SE TRANSFORMA EM ESTRATÉGIA ECONÓMICA
Poucos projectos de infra-estrutura têm uma dimensão geoeconómica comparável à do Corredor do Lobito.
Sob a responsabilidade do ministro dos Transportes, Ricardo Viegas D'Abreu, o corredor passou em 2026 por uma fase particularmente importante: sair da lógica de projecto estratégico e avançar para uma lógica de operação, financiamento e geração de fluxos comerciais.
Em Julho, foi anunciado o fecho do financiamento da Lobito Atlantic Railway, operação que deverá acelerar a modernização da ferrovia e do Terminal Mineiro do Porto do Lobito, reforçando a ligação à RDC e à Zâmbia.
A própria LAR reportou uma sequência de marcos operacionais em 2026: primeira remessa de cobalto da RDC em Abril, volume internacional mensal recorde de 28.690 toneladas em Junho, recorde mensal de exportação de cobre de 17.856 toneladas em Julho e novo recorde semanal de exportação de cobre de 5.619 toneladas em Setembro.
Em Fevereiro, D'Abreu definiu como prioridade a passagem do projecto para uma fase em que a sua credibilidade seria medida pela entrega de resultados no terreno, defendendo a transformação do corredor num sistema económico regional que ultrapasse a simples exportação de minerais e inclua logística, energia, indústria, agronegócio e serviços.
O Banco Africano de Desenvolvimento também reconhece o Corredor do Lobito como um eixo de integração entre Angola, RDC e Zâmbia, com potencial para facilitar não apenas minerais, mas também produtos agrícolas e industriais.
A grande questão económica passa agora por saber quanto valor Angola conseguirá reter dentro do território nacional: transporte, armazenagem, transformação, serviços logísticos, emprego, receitas portuárias e desenvolvimento industrial.
O indicador a acompanhar: toneladas movimentadas, frequência ferroviária, receitas portuárias, carga de retorno, investimento privado e valor acrescentado criado ao longo do corredor.
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CINCO PASTAS. UMA MESMA EQUAÇÃO.
Embora actuem em sectores diferentes, as agendas destes cinco ministérios convergem para uma questão central da economia angolana:
como transformar recursos e infra-estruturas em produção, investimento, emprego e divisas.
Massano está associado à coordenação macroeconómica.
Isaac dos Anjos à produção agrícola e segurança alimentar.
Diamantino Azevedo à principal fonte de receitas externas e investimento energético.
Márcio Daniel à construção de uma indústria turística capaz de gerar divisas.
Ricardo D'Abreu à infra-estrutura logística que pode ligar Angola aos grandes mercados minerais e comerciais da África Austral.
E os números de 2026 mostram que a discussão já não pode ser feita apenas em termos de anúncios.
O PIB cresceu 8,74% no segundo trimestre, o sector não petrolífero avançou 9,24%, a inflação caiu para 8,78% em Agosto, o sector petrolífero procura mobilizar mais de US$70 mil milhões em novos investimentos, a agricultura prepara uma nova campanha com 90 mil toneladas de fertilizantes, o turismo procura converter crescimento de visitantes em receitas e o Lobito começa a estabelecer novos máximos de carga.
O desafio, porém, permanece maior do que os números.
Crescimento do PIB não é automaticamente desenvolvimento. Investimento anunciado não é investimento executado. Turistas não são automaticamente receitas. Produção agrícola não é automaticamente segurança alimentar. E um corredor ferroviário não é automaticamente industrialização.
A verdadeira medida dos resultados de 2026 estará na capacidade de transformar estas agendas em valor económico real e sustentável para Angola.
Escrito por
Redação Clube De Valor