GRUPO CARRINHO PODE TORNAR-SE O MAIS PODEROSO NO BFA
Compra dos 33,35% do BPI coloca o grupo angolano como segundo maior accionista directo, mas a exposição económica através dos fundos AXIOS e ASSET pode elevar a sua posição no BFA para perto de 52%.
O Grupo Carrinho prepara-se para assumir uma das posições mais influentes na estrutura accionista do Banco de Fomento Angola (BFA). Através da Congolian Financial SA, o grupo chegou a acordo com o Banco BPI para adquirir a totalidade da participação de 33,35% que a instituição portuguesa ainda detém no banco angolano.
A operação, avaliada em pelo menos 388,5 milhões de euros, marca a saída definitiva do BPI do capital do BFA e transforma o Grupo Carrinho no segundo maior accionista directo da instituição, atrás apenas da Unitel, que detém 36,90%.
Mas é quando se olha para além da participação directa que a dimensão do poder do Grupo Carrinho começa a ganhar outra escala.
DE 33,35% PARA UMA EXPOSIÇÃO DE QUASE 52%
A fotografia convencional do BFA é simples: depois da conclusão da operação, a Unitel terá 36,90% e a Congolian Financial, ligada ao Grupo Carrinho, terá 33,35%.
A diferença entre os dois principais accionistas será de apenas 3,55 pontos percentuais.
Contudo, o universo económico associado ao Grupo Carrinho possui ainda exposição ao BFA através de dois fundos de investimento: o AXIOS e o ASSET.
O Fundo AXIOS detém 9,85% do capital do BFA, enquanto o Fundo ASSET possui 8,76%.
Em conjunto, representam 18,61% do capital do banco.
Se forem considerados, para efeitos de exposição económica, os 33,35% que a Congolian Financial está a adquirir ao BPI e os 18,61% correspondentes às participações dos fundos associados aos investidores do Grupo Carrinho, chega-se a uma exposição agregada de aproximadamente 51,96% do capital do BFA.
É um número que muda radicalmente a leitura sobre a posição do grupo.
MAS 51,96% NÃO SIGNIFICA CONTROLO DIRECTO
A ressalva é fundamental.
O Grupo Carrinho não passa automaticamente a deter juridicamente 51,96% do BFA.
Os 33,35% serão detidos directamente pela Congolian Financial. Já os 9,85% do AXIOS e os 8,76% do ASSET pertencem aos respectivos fundos, que possuem personalidade e estruturas de gestão próprias.
Os investidores detêm Unidades de Participação nos fundos e não directamente as acções do BFA que integram o património desses veículos.
Além disso, os direitos políticos associados às acções dos fundos são exercidos no âmbito das respectivas estruturas de gestão. O AXIOS é gerido pela Oluasi Investments SGOIC, enquanto o ASSET está associado à Prospectum Capital SGOIC.
Portanto, não é juridicamente correcto dizer que o Grupo Carrinho controla directamente 51,96% do BFA.
Mas também seria redutor ignorar que os beneficiários económicos ligados ao grupo possuem uma exposição extremamente relevante ao banco através desses veículos.
A ESTRATÉGIA DOS FUNDOS
A reorganização accionista ocorrida em 2026 é uma das peças mais importantes para compreender esta nova configuração.
Parte das acções anteriormente detidas pela Congolian Financial foi transferida para os fundos AXIOS e ASSET, tendo os respectivos investidores recebido Unidades de Participação.
O resultado foi uma alteração da forma jurídica da exposição ao BFA.
Em vez de concentrar toda a posição sob uma única sociedade, a exposição passou a estar distribuída por diferentes veículos de investimento e diferentes sociedades gestoras.
O AXIOS ficou com 9,85% e o ASSET com 8,76%.
Essa estrutura reduz a concentração da participação qualificada directamente atribuída à Congolian Financial, mas não elimina necessariamente a exposição económica dos investidores ao desempenho do BFA.
E é precisamente aqui que reside a importância dos fundos para compreender o verdadeiro peso do Grupo Carrinho.
O PODER NÃO ESTÁ APENAS NAS ACÇÕES
Num banco desta dimensão, poder accionista não se resume à percentagem de capital.
A influência pode resultar da capacidade de nomear ou influenciar administradores, participar nas decisões estratégicas, exercer direitos de voto, influenciar assembleias gerais e beneficiar da distribuição de dividendos.
Neste contexto, a posição directa de 33,35% já coloca a Congolian Financial numa posição de enorme relevância.
Quando se acrescenta a exposição económica associada ao AXIOS e ao ASSET, o Grupo Carrinho passa a estar ligado, directa ou indirectamente, a uma parcela do BFA que se aproxima da maioria absoluta do capital.
É essa combinação que pode transformar o Grupo Carrinho no centro de gravidade económico do banco.
UNITEL AINDA É A MAIOR ACCIONISTA DIRECTA
Apesar da dimensão da operação, a Unitel não perde a liderança accionista.
Com 36,90%, continuará a ser a maior accionista individual directa do BFA, enquanto a Congolian Financial ficará com 33,35%.
No entanto, a diferença é estreita.
A Unitel terá apenas mais 3,55 pontos percentuais do que a Congolian Financial.
E existe uma diferença importante entre a fotografia societária e a exposição económica: enquanto a Unitel aparece concentrada numa participação directa, a posição associada ao universo Carrinho está distribuída entre uma participação directa e veículos de investimento.
Por isso, a pergunta que emerge do novo desenho accionista não é apenas quem tem mais acções directamente?
É também:
Quem terá maior capacidade económica e estratégica para influenciar o futuro do BFA?
A SAÍDA DO BPI ABRE ESPAÇO PARA UM NOVO EQUILÍBRIO
Durante anos, o BPI foi uma das forças dominantes no BFA.
Até 2017, o banco português detinha 50,1% da instituição, contra 49,9% da Unitel. Nesse ano, vendeu 2% à Unitel, ficando com 48,1%.
A estrutura manteve-se durante vários anos até à Oferta Pública de Venda de 2025.
Na OPV, o BPI dispersou 14,75% do capital no mercado, reduzindo a sua participação para os 33,35% que agora serão vendidos ao Grupo Carrinho.
A Unitel também reduziu a sua posição através da dispersão em bolsa, passando para os actuais 36,90%.
A saída do BPI altera, assim, definitivamente o equilíbrio que marcou a história do banco.
Sai uma instituição financeira portuguesa ligada ao grupo espanhol CaixaBank e entra um dos maiores grupos empresariais angolanos.
UMA OPERAÇÃO QUE VAI ALÉM DA COMPRA DE 33,35%
O valor financeiro da transacção — pelo menos 388,5 milhões de euros — mostra a dimensão da aposta.
Mas o verdadeiro significado da operação não está apenas no montante pago.
Está na posição que o Grupo Carrinho poderá construir dentro de uma das instituições financeiras mais importantes de Angola.
Directamente, passa a controlar 33,35%.
Através dos fundos AXIOS e ASSET, existe ainda uma exposição correspondente a 18,61% do capital do BFA associada ao universo económico dos investidores Carrinho.
33,35% + 9,85% + 8,76% = 51,96%.
Essa soma não equivale, juridicamente, a uma participação directa de 51,96%. Mas demonstra a dimensão potencial da exposição económica do grupo ao banco.
E é precisamente por isso que o Grupo Carrinho pode tornar-se mais do que o segundo maior accionista do BFA.
Pode tornar-se um dos actores com maior peso económico e estratégico na instituição.
A Unitel continuará, formalmente, como maior accionista directo. Mas, com a conclusão da compra ao BPI, a questão que ficará no centro do mercado será outra:
até onde poderá chegar a influência do Grupo Carrinho sobre o BFA quando forem consideradas, em conjunto, a sua participação directa e as Unidades de Participação nos fundos AXIOS e ASSET?
A resposta dependerá não apenas da estrutura accionista, mas também da forma como os direitos políticos e económicos são efectivamente exercidos através destes veículos de investimento.
E é aí que poderá estar o verdadeiro poder do Grupo Carrinho no BFA.
Escrito por
Redação Clube De Valor