LICENCIADOS vs PAPAGAIOS
Filomena Oliveira questiona modelo de ensino em Angola e defende universidades capazes de formar pensadores, inovadores e solucionadores de problemas
A empresária Filomena Oliveira lançou uma crítica ao actual modelo de ensino em Angola, defendendo uma transformação profunda na forma como escolas e universidades ensinam, avaliam e preparam os estudantes para a vida profissional.
Ao defender maior investimento no sistema de ensino, Filomena Oliveira sustentou que as instituições de ensino devem deixar de ser apenas espaços de transmissão de conteúdos e assumir um papel mais activo na inovação, criatividade, investigação, desenvolvimento e criação de soluções para os desafios do país.
A crítica tornou-se particularmente contundente quando abordou o actual modelo de avaliação dos estudantes.
> “Um aluno que tem 20 valores é aquele que é capaz de repetir no papel, de cor, tudo aquilo que está no livro.”
Na sua perspectiva, uma formação baseada essencialmente na capacidade de memorizar e reproduzir conteúdos não garante que o estudante consiga compreender, questionar ou aplicar o conhecimento perante problemas concretos.
“Isso não é formar pessoas. Isso é formar papagaios”, afirmou.
LICENCIADOS OU REPRODUTORES DE CONHECIMENTO?
A provocação levantada por Filomena Oliveira coloca uma questão que ultrapassa a discussão sobre notas: o que significa, afinal, estar formado?
Um estudante pode dominar conceitos, teorias e definições e, ainda assim, encontrar dificuldades quando confrontado com uma situação que exige análise, adaptação e tomada de decisão.
Existe uma diferença fundamental entre reproduzir uma resposta que já existe e procurar compreender por que razão aquela resposta existe.
É precisamente nesse ponto que entra o pensamento crítico.
Por que razão esta é a resposta?
Por que razão esta pergunta foi formulada desta maneira?
E se a metodologia for alterada?
Que benefícios produz?
Em que contexto funciona?
Será esta, de facto, a solução adequada?
Questionar não significa rejeitar o conhecimento adquirido. Significa testá-lo, contextualizá-lo e procurar formas de o desenvolver.
É nesse processo que o conhecimento deixa de ser apenas memorização e passa a transformar-se em capacidade de análise e criação.
TEORIA SEM PRÁTICA NÃO RESOLVE TUDO
O debate também expõe uma tensão antiga no ensino superior: a distância entre teoria e prática.
A teoria é indispensável. É ela que fornece conceitos, métodos, princípios e estruturas para compreender determinado fenómeno. Mas a realidade nem sempre se comporta exactamente como os manuais descrevem.
Há situações em que uma solução teoricamente correcta precisa de ser adaptada às condições concretas para funcionar.
No mercado de trabalho, nas empresas, na engenharia, na gestão, na investigação ou na administração pública, os profissionais raramente recebem problemas acompanhados de uma resposta previamente indicada no final da página.
Precisam de diagnosticar, interpretar, testar, corrigir, adaptar e decidir.
Por isso, formar alguém não deveria significar apenas prepará-lo para responder correctamente a uma pergunta conhecida. Deveria também prepará-lo para enfrentar uma pergunta para a qual ainda não existe resposta pronta.
O DESAFIO É PRODUZIR SOLUÇÕES
Angola precisa de profissionais capazes de transformar conhecimento em resultados.
Isso significa formar pessoas que não apenas saibam o que já foi descoberto, mas que também tenham ferramentas para perguntar o que ainda pode ser descoberto.
A universidade pode transmitir conhecimento produzido em outras partes do mundo, mas também pode criar condições para que estudantes e investigadores produzam conhecimento relevante para a realidade angolana.
Problemas como produtividade, industrialização, emprego, educação, habitação, saúde, agricultura, energia, tecnologia, financiamento empresarial e diversificação económica exigem mais do que a reprodução de conceitos.
Exigem soluções contextualizadas.
É neste ponto que a provocação de Filomena Oliveira ganha dimensão maior: o objectivo da educação não deveria ser simplesmente produzir licenciados que conhecem respostas, mas profissionais capazes de encontrar respostas quando elas não estão no livro.
A verdadeira questão, portanto, talvez não seja apenas quantos licenciados Angola está a formar.
É que tipo de licenciados está a formar — e o que esses licenciados conseguem fazer com aquilo que aprenderam.
Escrito por
Redação Clube De Valor