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Petróleo & Gás

O TRIÂNGULO AMOROSO DO PETRÓLEO ANGOLANO

Por Redação Clube De Valor · 11/09/2026 · 8 min de leitura
O TRIÂNGULO AMOROSO DO PETRÓLEO ANGOLANO

Diamantino Azevedo, Paulino Jerónimo e Sebastião Gaspar Martins

Um reformou a arquitectura do sector. Outro abriu o caminho às concessões e ao investimento. O terceiro conduz a principal empresa petrolífera nacional dentro do novo modelo. Juntos, os seus percursos atravessam uma das maiores transformações da indústria petrolífera angolana desde 2019.

Há histórias que podem ser contadas através de empresas, outras através de números. A história recente do petróleo angolano pode também ser lida através de três homens que ocupam vértices diferentes da mesma engrenagem: Diamantino Azevedo, Paulino Jerónimo e Sebastião Gaspar Martins.

Não se trata de uma relação de comando entre os três. Trata-se de uma complementaridade institucional.

Diamantino Azevedo representa a política e a reforma. Paulino Jerónimo representa a concessão, regulação e atracção de investimento no upstream. Sebastião Gaspar Martins representa a Sonangol empresarial, a exploração e produção e a transformação dos activos energéticos em negócio.

E os números mostram a dimensão da aposta.

2019: O ANO QUE MUDOU O TABULEIRO

A criação da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG), através do Decreto Presidencial n.º 49/19, marcou uma alteração estrutural no modelo de governação do sector. A função de Concessionária Nacional, anteriormente exercida pela Sonangol, passou para a ANPG, enquanto a petrolífera nacional foi reposicionada para actuar como empresa integrada na cadeia de valor dos hidrocarbonetos.

Foi uma mudança decisiva: quem define políticas, quem administra as concessões e quem produz deixaram de estar concentrados na mesma estrutura empresarial.

Diamantino Azevedo esteve no centro desta agenda enquanto ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás. A reforma procurou criar maior clareza institucional, melhorar o ambiente de investimento e acelerar a actividade de exploração.

A própria ANPG passou a ter como missão gerir o upstream, promover investimentos e administrar as concessões petrolíferas.

DIAMANTINO: O ARQUITECTO DA REFORMA

A agenda de Azevedo não se limitou à criação da ANPG.

O novo modelo incluiu estratégias de licitação, alterações legais e fiscais, incentivos à exploração, desenvolvimento de campos marginais, conteúdo local e uma redefinição do papel da Sonangol.

Em 2021, o próprio Ministério destacava que as reformas procuravam criar uma atmosfera mais atractiva para o investimento, incluindo novas estratégias de concessão, exploração e desenvolvimento do gás.

O objectivo era enfrentar um dos problemas mais sérios da indústria angolana: a maturidade dos campos e o declínio da produção.

Não bastava produzir o petróleo que Angola já tinha descoberto.

Era necessário descobrir mais, investir mais e prolongar a vida dos campos existentes.

PAULINO: O HOMEM DAS CONCESSÕES

É neste ponto que entra Paulino Jerónimo.

Na ANPG, Jerónimo tornou-se uma das figuras centrais da operacionalização do novo modelo. Quando assumiu a presidência da agência, recebeu uma missão explícita: acelerar licitações, aumentar a exploração e contribuir para a estabilização da produção. O próprio ministro Diamantino Azevedo apelou à ANPG para aumentar a dinâmica das licitações e da produção.

Jerónimo, por sua vez, colocou entre as prioridades a recuperação dos campos maduros, através do aumento do factor de recuperação e da criação de incentivos para que os operadores investissem mais.

A estratégia também introduziu mecanismos como a oferta permanente, permitindo negociar blocos e áreas disponíveis de forma contínua, com o objectivo de potenciar novos investimentos.

O resultado é uma indústria com uma fronteira exploratória muito mais activa.

US$ 99 MIL MILHÕES: O TAMANHO DA APOSTA

Entre 2017 e 2025, Angola acumulou cerca de US$ 99 mil milhões de investimento no sector petrolífero.

No mesmo período foram perfurados 38 poços de exploração, que resultaram em 16 descobertas, enquanto foram negociadas 72 novas concessões petrolíferas.

Destas, 44 já foram assinadas e 28 encontravam-se em fase de aprovação no balanço apresentado em Setembro de 2026 pelo ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, durante a abertura da AOG 2026.

São números expressivos.

Mas existe uma distinção que não pode ser ignorada:

investimento não é produção; concessão não é descoberta; e descoberta não é automaticamente reserva comercial ou barril produzido.

O verdadeiro teste começa depois da assinatura.

O PROBLEMA: ANGOLA PRECISA DE MAIS BARRIS

É aqui que a narrativa deixa de ser triunfalista.

Angola enfrenta há anos o declínio natural dos seus campos maduros. A estratégia de novas concessões e exploração procura, precisamente, substituir reservas consumidas e criar uma base produtiva capaz de sustentar a produção no longo prazo.

Por isso, os US$ 99 mil milhões não devem ser lidos apenas como demonstração de capacidade de atrair capital.

São também uma resposta a uma necessidade estrutural:

Angola precisa de investir para não perder capacidade produtiva.

O desafio é converter capital em descobertas comerciais, descobertas em desenvolvimento, desenvolvimento em produção e produção em receitas e valor económico.

SEBASTIÃO: A SONANGOL NO NOVO TABULEIRO

É neste ponto que surge Sebastião Gaspar Martins.

Desde 2019, o PCA da Sonangol conduz a empresa dentro de uma realidade institucional diferente daquela que existia antes da reforma.

A Sonangol deixou de concentrar a função de Concessionária Nacional e passou a operar dentro de uma arquitectura em que a ANPG administra o upstream.

O reposicionamento também colocou maior foco da empresa na cadeia de valor petrolífera, incluindo prospecção, pesquisa, produção de petróleo e gás, refinação, liquefacção, transporte, armazenagem e comercialização.

É uma mudança fundamental.

A Sonangol já não é o árbitro do campo onde joga. É um dos principais jogadores.

E a sua capacidade de investir, operar e participar em novos projectos tornou-se parte importante da estratégia nacional de sustentação da produção.

GREATER PAJ: QUANDO O TRIÂNGULO SE ENCONTRA

Um dos melhores exemplos desta nova arquitectura é o Greater PAJ.

O projecto envolve cerca de US$ 5,1 mil milhões de investimento e prevê uma capacidade estimada de 95 mil barris de petróleo por dia, com início de produção previsto para 2029.

A estrutura societária demonstra precisamente como funciona o novo modelo.

No Bloco 31, a Azule Energy opera com 26,67%, a Sonangol E&P detém 45%, a SSI 15% e a Equinor 13,33%. No Bloco 31/21, Azule Energy e Equinor dividem a participação em 50% cada.

A ANPG administra a concessão.

O Ministério define e supervisiona a política sectorial.

A Sonangol participa como parceiro empresarial.

É o triângulo institucional transformado em projecto.

MAS A PRÓXIMA GRANDE APOSTA JÁ NÃO É APENAS O PETRÓLEO

É aqui que a história ganha uma dimensão ainda maior.

A nova fronteira é o gás natural.

A ANPG projecta cerca de US$ 70 mil milhões de investimento público e privado em infra-estruturas de transporte e distribuição de gás até 2050.

A estimativa apresentada na pré-conferência da Angola Oil & Gas 2026 inclui ainda US$ 6 mil milhões em downstream e processamento de gás e cerca de US$ 90 mil milhões de investimento privado no upstream ao longo de 25 a 30 anos.

A dimensão do mercado potencial é igualmente expressiva.

A procura doméstica de gás poderá passar de aproximadamente 30 milhões de pés cúbicos por dia em 2025 para 500 milhões em 2050 — um aumento de cerca de 18 vezes.

A estratégia será desenvolvida por fases, começando por Cabinda, Soyo e Zaire, avançando posteriormente para Luanda, Cuanza-Sul e Benguela, e chegando numa terceira fase ao sul do país, incluindo o Namibe.

DO PETRÓLEO À INDÚSTRIA

É aqui que a estratégia deixa de ser apenas petrolífera.

O gás poderá alimentar geração eléctrica, fertilizantes, petroquímica, siderurgia, mineração, transportes e outras actividades industriais.

A ANPG aponta, por exemplo, para o potencial de utilização do gás na produção de fertilizantes, num país que actualmente importa aproximadamente 140 mil toneladas de fertilizantes por ano.

Isso muda a pergunta.

Não é mais apenas:

“Quanto petróleo Angola consegue produzir?”

Passa a ser:

“Quanto valor Angola consegue criar a partir de cada barril e de cada molécula de gás produzida?”

O VERDADEIRO TESTE DO TRIÂNGULO

É por isso que a história de Diamantino Azevedo, Paulino Jerónimo e Sebastião Gaspar Martins não deve ser contada apenas como a história de três dirigentes.

Ela representa uma transformação de arquitectura.

Diamantino ajudou a redesenhar as regras.

Paulino ajudou a transformar essas regras em concessões, licitações e oportunidades de investimento.

Sebastião conduz a Sonangol como empresa dentro desse novo modelo, procurando aumentar a participação e a capacidade operacional na cadeia energética.

Mas o resultado final não será medido pelo número de decretos, concessões ou discursos.

Será medido por reservas repostas, produção sustentada, projectos desenvolvidos, gás disponibilizado à indústria, empresas nacionais integradas na cadeia de valor, empregos criados e receitas geradas para Angola.

Os US$ 99 mil milhões já investidos são a dimensão da aposta.

Os US$ 70 mil milhões previstos para o midstream do gás mostram a dimensão da próxima.

E os US$ 90 mil milhões de potencial investimento privado no upstream revelam que o petróleo continuará a ser estratégico durante décadas.

No fundo, o verdadeiro “triângulo amoroso” do petróleo angolano não é sobre três homens.

É sobre três funções que precisam funcionar simultaneamente: reformar, atrair e produzir.

Porque reformar o sector é apenas o começo. Atrair capital abre a porta. Descobrir recursos cria esperança. Produzir cria receita. Mas transformar petróleo e gás em indústria, empresas, empregos e desenvolvimento é aquilo que finalmente poderá definir o legado desta geração.

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