A DINASTIA KAPAIA
Agostinho Kapaia construiu o Grupo OPAIA, hoje presente em sectores estratégicos da economia angolana. A irmã, Augusta Maravilha Kapaia, lidera a fundação do grupo e assumiu a vice-presidência da União de Estudantes de Toda África, ampliando a presença da família na formação de jovens e na liderança continental.
A história da família Kapaia ganhou expressão no mundo empresarial angolano com a ascensão de Agostinho Kapaia, fundador e presidente do conselho de administração do Grupo OPAIA. Mais de duas décadas depois da criação da empresa, a presença da família estende-se também à educação, ao desenvolvimento de competências e ao associativismo africano, áreas em que se destaca a sua irmã, Augusta Maravilha Kapaia.
A ligação entre os dois permite olhar para a dinastia Kapaia para além da dimensão empresarial. Há um grupo económico em expansão e uma intervenção social que procura aproximar jovens, universidades e empresas.
AGOSTINHO KAPAIA E A CONSTRUÇÃO DA OPAIA
Natural do Huambo, Agostinho Kapaia fundou o Grupo OPAIA em Agosto de 2002. Formado em Ciências Económicas pela Universidade Católica de Angola, concluiu posteriormente um Executive MBA na London Business School, entre 2017 e 2019.
Sob a sua liderança, o grupo desenvolveu negócios em áreas como construção civil, infra-estruturas, agricultura, hotelaria, tecnologia e mobilidade. Entre os activos associados à OPAIA estão o Hotel Ekuikui II, no Huambo, a empresa tecnológica Ever.IT e a Agripaia, ligada à actividade agrícola. A diversificação levou o grupo a participar em projectos públicos e privados de grande dimensão.
Um dos investimentos mais relevantes é a fábrica de fertilizantes AMUFERT, no Soyo, província do Zaire, desenvolvida com participação da Sonangol através da Sonagás e com financiamento do Afreximbank. O projecto prevê uma capacidade anual de produção de cerca de 1,3 milhões de toneladas de ureia granulada. Em Julho de 2026, Agostinho Kapaia assumiu a presidência do conselho de administração da empresa. A entrada em funcionamento foi apontada para Maio de 2027.
A dimensão dos negócios também trouxe escrutínio público. Em 2024, a aquisição de 600 autocarros Volvo pelo Estado angolano, num contrato de 323,5 milhões de euros que envolveu empresas ligadas à OPAIA, gerou críticas sobre os custos e o recurso ao ajuste directo. O Ministério dos Transportes indicou que o projecto incluía componentes adicionais, como manutenção e assistência técnica, além de uma unidade de montagem. O caso continua a fazer parte do debate sobre transparência na contratação pública e responsabilidade empresarial.
MARAVILHA KAPAIA: DA FUNDAÇÃO À LIDERANÇA AFRICANA
Augusta Maravilha Kapaia tem desenvolvido um percurso próprio, com foco na educação, no empreendedorismo social e na capacitação de jovens. É directora-geral da OPAIA Foundation, cuja apresentação oficial decorreu em Julho de 2025, no Instituto Superior Politécnico do Soyo. A instituição trabalha em áreas ligadas à formação, ao desenvolvimento de competências e à criação de oportunidades, procurando aproximar o conhecimento académico das necessidades do mercado de trabalho.
No plano académico, Augusta Maravilha Kapaia concluiu uma formação em Gestão de Negócios na Universidade de Hull e obteve um mestrado em Inovação pela Universidade de Sussex, no Reino Unido. O seu percurso inclui ainda um doutoramento honorário em Liderança e Gestão do Desenvolvimento do Capital Humano, atribuído pela American Management University, em Londres, no âmbito do Africa Growth Summit and Awards. Este percurso formativo acompanha a sua intervenção na OPAIA Foundation, onde lidera iniciativas de capacitação e desenvolvimento de jovens, e na União de Estudantes de Toda África, em que exerce funções de vice-presidente.
O trabalho da fundação ganha relevância num país onde a entrada dos jovens no mercado de trabalho continua a ser um desafio. Entre as iniciativas divulgadas estão programas de capacitação e parcerias para formação técnica. Em 2026, a organização destacou uma iniciativa de bolsas de formação profissional, em colaboração com o Centro Integrado de Formação Tecnológica (CINFOTEC), que disponibilizou 242 bolsas para cursos técnicos. A ligação entre formação e emprego constitui uma das áreas centrais da intervenção de Maravilha.
Em Fevereiro de 2026, Maravilha assumiu a vice-presidência da União de Estudantes de Toda África, conhecida pela sigla AASU, para um mandato de quatro anos. A organização, fundada em 1972, reúne estruturas estudantis de diferentes países africanos e intervém em matérias como direitos dos estudantes, acesso à educação e participação juvenil. A presença de uma angolana na liderança representa uma oportunidade para dar maior visibilidade às preocupações dos estudantes do país no espaço continental.
O PESO DO LEGADO FAMILIAR
Nas empresas familiares, a continuidade depende da capacidade de cada geração desenvolver competências, assumir responsabilidades e criar resultados próprios. No caso dos Kapaia, Agostinho construiu uma estrutura empresarial diversificada, enquanto Maravilha tem dado expressão à vertente social e formativa associada à fundação do grupo.
Os dois percursos cruzam-se no interesse pelo desenvolvimento económico e humano, mas exigem avaliações distintas. O crescimento da OPAIA será medido pela execução dos seus investimentos, pela capacidade de gerar actividade produtiva e pela transparência na gestão. O trabalho da fundação dependerá do alcance dos seus programas, da qualidade da formação e das oportunidades efectivamente criadas para os jovens.
A dinastia Kapaia reúne, assim, duas frentes de intervenção. Uma procura ampliar a presença empresarial angolana em sectores estratégicos. A outra aposta na preparação de pessoas para participar na economia e na vida pública africana. A continuidade deste percurso será determinada pelos resultados que ambas conseguirem apresentar.
Escrito por
Redação Clube De Valor