SE OS PROJECTOS JÁ TÊM DATAS... AS PESSOAS QUE VÃO EXECUTAR JÁ DEVIAM ESTAR EM FORMAÇÃO.
Escrevo no fim do primeiro dia da Angola Oil & Gas.
O número que se repetiu hoje foi setenta mil milhões de dólares em investimento previsto para o upstream angolano. É um número grande e é justo que domine as conversas. O Secretário de Estado para o Petróleo e Gás resumiu o momento de forma directa: 2026 é o ano de mobilizar, investir e definir os próximos cinquenta anos do nosso sector.
Mas passei o dia a reparar noutra coisa, e é uma coisa que se vê melhor de dentro de uma operação do que de uma plateia.
Quase todos os projectos de que se falou hoje têm data.
O Kaminho, na Bacia do Kwanza, com produção prevista para 2028. A refinaria do Lobito, prevista para 2027. A refinaria de Cabinda, já a operar. O primeiro gás não associado do país, já em curso. A terceira fase do Agogo. Sísmica e perfuração em terra a decorrer neste momento, incluindo a nossa.
Somados, esses prazos cabem quase todos nos próximos três anos.
E uma data, num projecto desta indústria, significa uma coisa muito concreta. Significa que alguém tem de estar em campo naquele dia, com competência técnica, certificação válida e experiência real. Não daqui a uma geração. Em 2027. Em 2028.
Quando falamos de investimento, falamos de capital. Quando falamos de execução, falamos de pessoas. E as pessoas que vão executar os projectos de 2028 estão hoje, neste momento, ou numa sala de aula, ou num centro de formação, ou em lado nenhum.
É por isso que a conversa sobre conteúdo local que se ouve nestes encontros só fica de pé quando chega até aqui. Não basta perguntar quantos contratos vão para empresas angolanas. Vale a pena perguntar também quem os vai executar, quem forma essa gente, e quanto do conhecimento técnico permanece no país depois de o projecto terminar.
Na Alfort vivemos isto do lado prático, num bloco em terra, com as exigências que uma operação em zona sensível impõe. E na Fundação trabalhamos o outro lado, com jovens que estão a aprender geociências antes de escolherem uma carreira. As duas coisas parecem distantes. Na prática, é o mesmo calendário.
A Alfort Petroleum está nomeada para Local Company of the Year nesta edição. Recebo a nomeação com satisfação e com a noção de que o que ela mede é o caminho até aqui.
O que me interessa é o que vem a seguir.
Se o país tem setenta mil milhões de dólares em projectos com data marcada, a pergunta que vale a pena fazer amanhã, é simples.
Quem vai estar lá quando essas datas chegarem?
Escrito por
Gianni G. Martins