19 FÁBRICAS DE LAPIDAÇÃO ATÉ 2027... QUANTAS CONCLUÍDAS ATÉ AGORA?
Angola quer transformar o diamante de matéria-prima exportada em bruto numa fonte de maior valor acrescentado dentro do próprio país. Para isso, o Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) 2023–2027 colocou a expansão da indústria de lapidação entre as prioridades do sector dos recursos minerais.
A meta é ambiciosa: 19 fábricas de lapidação no Pólo de Desenvolvimento Diamantífero de Saurimo (PDDS), sob responsabilidade da SODIAM E.P.
Mas, quando o país se aproxima do último ano do actual ciclo de planeamento, surge uma questão que vai além das inaugurações: quanto da meta foi efectivamente cumprido?
A META ESTÁ ESCRITA NO PDN
O PDN 2023–2027 estabelece como objectivo aumentar a capacidade de lapidação de diamantes no país através da construção de novas fábricas. Entre as acções previstas está a promoção da construção de 19 fábricas de lapidação sob responsabilidade da SODIAM. O mesmo programa prevê ainda outras 10 fábricas sob responsabilidade da ENDIAMA, além da criação do Pólo de Lapidação de Diamantes do Dundo.
Existe, contudo, uma nuance importante: o Decreto Presidencial n.º 225/23, que aprova o PDN, estabeleceu inicialmente a promoção das 19 fábricas da SODIAM até 2026. O PDN, enquanto instrumento de médio prazo, estende-se até 2027.
Portanto, a avaliação do cumprimento da meta deve considerar não apenas o horizonte global do PDN, mas também o prazo originalmente inscrito para esta entrega específica.
DE 19 PROMETIDAS, QUANTAS ESTÃO CONCLUÍDAS?
É aqui que os números exigem cuidado.
Em 2023, a SODIAM informou que tinha iniciado o processo para a construção das 19 unidades e que, para 2024, pretendia dar continuidade à construção das primeiras cinco fábricas do conjunto.
No relatório de gestão de 2024, a empresa registou que as obras das primeiras cinco unidades apresentavam 54% de execução física naquele ano e estabeleceu como objectivo para a fase seguinte concluir essas cinco fábricas e iniciar a segunda fase, composta por mais sete unidades.
Já em Junho de 2025, o responsável pelo Departamento de Planeamento e Investimento da SODIAM afirmou que as obras da primeira fase tinham atingido 80% de execução.
Na mesma ocasião, a SODIAM informou que duas novas fábricas haviam sido concluídas entre 2023 e 2024, além das cinco que já estavam em operação.
Este dado, porém, não deve ser confundido automaticamente com “duas das 19 fábricas concluídas”.
O parque nacional de lapidação inclui unidades privadas e unidades que já existiam antes da execução deste pacote específico. Em 2024, Angola contabilizava oito fábricas inauguradas desde 2019, sendo três em Luanda e cinco no PDDS.
Assim, o número total de fábricas existentes no país não corresponde ao número de fábricas executadas dentro da meta específica das 19 unidades da SODIAM.
O QUE ACONTECEU À PRIMEIRA FASE?
A primeira fase é particularmente reveladora.
O projecto foi estruturado em três fases: cinco fábricas de maior dimensão na primeira etapa e outras 14 unidades nas duas fases seguintes. Em 2025, a SODIAM indicava que as primeiras cinco já estavam em torno de 80% de execução.
Se esse ritmo tivesse sido convertido integralmente em conclusão, a primeira fase deveria representar actualmente um avanço concreto sobre cinco unidades.
Entretanto, a informação pública mais recente encontrada não apresenta um quadro oficial consolidado da SODIAM, actualizado a Setembro de 2026, indicando individualmente quantas das 19 unidades financiadas pela empresa estão concluídas, equipadas, licenciadas e efectivamente operacionais.
E esta distinção é fundamental.
Uma obra concluída não é necessariamente uma fábrica operacional.
Uma fábrica precisa de equipamento, licenciamento, trabalhadores especializados, acesso regular a matéria-prima, condições comerciais e capacidade financeira para operar de forma sustentável.
ENQUANTO ISSO, SAURIMO CONTINUA A CRESCER
O paradoxo do sector é que, apesar da dificuldade em medir o cumprimento integral das 19 fábricas, o Pólo de Desenvolvimento Diamantífero de Saurimo continua a expandir a sua actividade.
Em Agosto de 2026, foi inaugurada a fábrica da Diarough Angola, elevando para seis o número de fábricas em operação no PDDS. A unidade prevê gerar 130 empregos e incorpora tecnologia de rastreabilidade baseada em blockchain.
Em Setembro, o MIREMPET anunciou que o polo caminha para a sétima fábrica, cuja inauguração foi indicada como estando prevista “para breve”.
Ou seja, há expansão real da indústria de lapidação.
A questão é saber quanto dessa expansão representa execução directa da meta das 19 fábricas da SODIAM e quanto resulta de investimentos privados ou de unidades que não integram o mesmo pacote de construção.
O PRINCIPAL ENTRAVE: TORNAR A LAPIDAÇÃO ECONOMICAMENTE VIÁVEL
Os próprios documentos do sector mostram que a dificuldade não é apenas construir edifícios.
A SODIAM reconheceu, já em 2023, a necessidade de criar medidas que permitissem viabilizar economicamente as fábricas de lapidação e melhorar a capacidade de atracção de investimento, enquanto não existisse um quadro legal e de incentivos suficientemente competitivo.
Entre os mecanismos discutidos estiveram medidas relacionadas com a comercialização de diamantes, o tratamento do IVA e a disponibilização de uma quota de produção destinada às fábricas locais.
A questão do IVA é particularmente relevante porque os atrasos no reembolso foram identificados pelo sector como factor capaz de pressionar a tesouraria das empresas de lapidação.
O problema, portanto, não termina na construção.
É preciso garantir que as fábricas conseguem comprar diamantes, processá-los, vender a produção e gerar retorno suficiente para continuar a operar.
INVESTIMENTO PRIVADO É OUTRO DESAFIO
A expansão da indústria depende também da capacidade de Angola atrair investidores especializados.
Em 2023, a SODIAM realizou iniciativas para atrair empresas internacionais de lapidação e, posteriormente, assinou memorandos de entendimento com potenciais investidores para novas unidades no PDDS.
A própria existência de um regime provisório de incentivos demonstra que o Governo identificou a competitividade económica como uma questão central para o desenvolvimento do sector.
O PDN, aliás, previa expressamente a elaboração de um diploma para atribuição de incentivos fiscais às empresas de lapidação.
O CAPITAL HUMANO TAMBÉM ESTÁ NA EQUAÇÃO
Não basta importar máquinas.
A expansão da indústria exige lapidadores, avaliadores, técnicos e gestores especializados.
A SODIAM informou que já havia formado dezenas de jovens através do Centro de Formação de Lapidação e Avaliação de Diamantes. Em 2025, a empresa reportava 178 jovens formados, com cerca de 65% já empregados ou destinados às novas unidades.
Este é um dos elementos positivos da estratégia: a expansão industrial está a ser acompanhada por uma tentativa de desenvolver capacidade técnica nacional.
O VERDADEIRO TESTE É 2027
A meta estabelecida para a indústria não é apenas contar edifícios.
O PDN prevê que, até 2027, a lapidação anual de diamantes brutos em Angola alcance 21.326 quilates.
Este indicador permite avaliar se a política está efectivamente a produzir transformação económica.
Porque é possível inaugurar fábricas e, ainda assim, manter uma capacidade de processamento abaixo do potencial instalado.
O objectivo final é diferente: mais diamantes lapidados em Angola, mais emprego especializado, maior capacidade industrial e uma parcela maior do valor da cadeia diamantífera retida no país.
ENTÃO, ANGOLA ESTÁ A CUMPRIR A META?
A resposta, à data de 25 de Setembro de 2026, é: há progresso, mas não existe evidência pública suficiente para afirmar que a meta das 19 fábricas já esteja concluída.
O que os dados permitem afirmar é que:
19 — é a meta de fábricas da SODIAM no PDDS;
5 — constituíram a primeira fase de construção;
54% — era o grau de execução física reportado para essas obras em 2024;
80% — era o nível de execução indicado pela SODIAM em Junho de 2025;
2 — foram reportadas pela SODIAM como novas fábricas concluídas entre 2023 e 2024, mas este número não deve ser automaticamente apresentado como “2 das 19” sem identificação documental das unidades;
6 — é o número de fábricas actualmente em operação no PDDS após a inauguração da Diarough em Agosto de 2026;
7.ª — está anunciada para inauguração em breve;
21.326 quilates — é a meta de lapidação anual estabelecida para 2027.
A CONTA AINDA NÃO FECHA
O sector diamantífero angolano está, inequivocamente, a avançar na verticalização da cadeia de valor. O número de fábricas cresceu, Saurimo consolidou-se como centro de lapidação e novos investidores internacionais continuam a entrar.
Mas crescimento não é o mesmo que cumprimento integral de uma meta.
A pergunta central para o Executivo, SODIAM e demais entidades responsáveis passa agora a ser objectiva:
Das 19 fábricas previstas, quantas estão fisicamente concluídas? Quantas estão equipadas? Quantas possuem licença de operação? Quantas estão efectivamente a produzir? E qual é o calendário real para as restantes?
É a resposta a estas quatro perguntas que permitirá determinar se a meta de industrialização diamantífera está simplesmente a avançar — ou se está efectivamente a ser cumprida dentro do prazo projectado.
O diamante angolano já está a ser lapidado em Angola. A questão agora é saber se, até 2027, a escala prometida estará à altura da ambição definida no PDN.
Escrito por
Redação Clube De Valor