UM MÊS APÓS ATAQUE... UNITEL MANTÉM ACÇÕES ABAIXO DO PREÇO FINAL, MAS LIDERA MASSIVAMENTE VOLUME DE NEGOCIAÇÕES
Um mês depois de ter entrado em bolsa e semanas após o ciberataque que afectou os seus serviços, a UNITEL continua a negociar abaixo do preço final da Oferta Pública de Venda (OPV), mas mantém uma posição dominante na actividade do mercado accionista angolano. O título tornou-se, de longe, um dos principais motores de liquidez da BODIVA, concentrando uma parcela extraordinária dos negócios realizados.
A entrada da UNITEL na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA), a 29 de Julho, transformou imediatamente a dinâmica do mercado accionista nacional. A operadora colocou 7,5 milhões de acções à disposição dos investidores, correspondentes a 15% do seu capital social, ao preço final de 40.040 kwanzas por acção.
A estreia foi marcada por forte procura e valorização. No primeiro dia de negociação, a acção chegou a atingir aproximadamente 50.000 kwanzas, muito acima do preço definido na OPV, antes de encerrar a sessão nos 47.100 kwanzas.
O cenário, entretanto, mudou rapidamente.
Nos dias seguintes, a cotação entrou numa forte trajectória de correcção, num período que coincidiu com o ciberataque que afectou a infraestrutura da UNITEL e provocou interrupções nos serviços de voz, dados móveis e Internet.
A pressão sobre o título levou a cotação a atingir 30.500 kwanzas no início de Agosto, representando uma queda expressiva face aos máximos registados imediatamente após a estreia. O movimento colocou as acções abaixo do preço de admissão e abriu uma nova fase de descoberta de preço para o activo.
UM MÊS DEPOIS, A COTAÇÃO AINDA NÃO RECUPEROU OS 40.040 KZ
Nas últimas sessões de Agosto, a UNITEL recuperou parte significativa das perdas. O título passou a negociar na faixa dos 38.400 a 38.500 kwanzas, aproximando-se novamente do preço da OPV.
Apesar da recuperação, a cotação permanece abaixo dos 40.040 kwanzas pagos pelos investidores na oferta.
Na sessão de 26 de Agosto, por exemplo, as acções encerraram nos 38.400 kwanzas. Isto significa que o título permanecia cerca de 4,1% abaixo do preço final da OPV.
Contudo, quando analisado o percurso desde o mínimo de 30.500 kwanzas, o comportamento é substancialmente diferente: a acção já recuperou aproximadamente 26%.
A UNITEL encontra-se, assim, num ponto intermédio entre a forte correcção registada após a estreia e a recuperação necessária para ultrapassar novamente o preço de entrada em bolsa.
MAS A LIQUIDEZ É OUTRA HISTÓRIA
Se o comportamento do preço revela pressão e volatilidade, os volumes de negociação contam uma história diferente.
Até à terceira semana de Agosto, as acções da UNITEL representavam 77,01% de todos os títulos movimentados na BODIVA em 2026, evidenciando a dimensão extraordinária que o activo adquiriu no mercado secundário.
A concentração também se manifesta nas sessões individuais.
No dia 26 de Agosto, a UNITEL movimentou cerca de 71,77 milhões de kwanzas, de um volume global de aproximadamente 97,14 milhões de kwanzas no mercado accionista. Isto correspondeu a cerca de 73,9% do volume financeiro da sessão.
Foram realizados 104 negócios envolvendo o título, num mercado accionista que registou 189 negócios no total.
O dado é particularmente relevante porque demonstra que a correcção da cotação não afastou os investidores do activo. Pelo contrário, a UNITEL continua a ser o título que mais concentra a atenção dos participantes no mercado.
QUEDA NO PREÇO, MAS NÃO NA PROCURA POR NEGOCIAÇÃO
O caso da UNITEL evidencia uma distinção importante no funcionamento do mercado de capitais: liquidez e valorização não são a mesma coisa.
Uma acção pode estar a negociar abaixo do preço da OPV e, simultaneamente, ser o título mais procurado para compra e venda.
É precisamente o que ocorre actualmente com a UNITEL.
O preço ainda não recuperou os 40.040 kwanzas definidos na oferta, mas o activo apresenta uma frequência de negociação muito superior à dos restantes títulos accionistas disponíveis no mercado.
Essa elevada actividade pode estar relacionada com vários factores, entre eles a dimensão e notoriedade da empresa, a novidade da sua presença em bolsa, o elevado número de investidores que participaram na OPV e a possibilidade de realização de ganhos através da volatilidade do preço.
DO CIBERATAQUE À RECONSTRUÇÃO DA CONFIANÇA
O ciberataque tornou ainda mais complexa a primeira fase da UNITEL enquanto empresa cotada.
A ocorrência surgiu num momento particularmente sensível: poucas semanas depois da estreia em bolsa, quando os investidores ainda estavam a formar expectativas sobre o valor do título.
A queda para 30.500 kwanzas representou uma forte correcção e colocou o mercado perante uma questão central: até que ponto os acontecimentos operacionais poderiam afectar a percepção de risco e, consequentemente, o valor atribuído à empresa?
A recuperação posterior para a região dos 38.400–38.500 kwanzas sugere que parte dessa pressão foi absorvida pelo mercado. Mas o facto de a cotação ainda permanecer abaixo dos 40.040 kwanzas indica que o processo de formação do preço ainda não terminou.
A UNITEL JÁ É O TÍTULO MAIS IMPORTANTE DO MERCADO ACCIONISTA?
Em termos de volume e frequência de negociação, os números apontam claramente para uma posição dominante.
A UNITEL não é apenas uma nova acção na BODIVA. Em poucas semanas, tornou-se o principal centro de actividade do mercado accionista angolano, concentrando uma parcela extraordinária da liquidez disponível.
O desafio agora é transformar essa liquidez em estabilidade.
Para os investidores, a questão fundamental deixou de ser apenas quanto a UNITEL consegue movimentar diariamente. O verdadeiro indicador será a capacidade do título de consolidar uma cotação sustentável acima dos 40.040 kwanzas da OPV, sem depender exclusivamente da elevada volatilidade e do forte interesse inicial provocado pela entrada em bolsa.
Um mês depois do ataque e praticamente um mês após a estreia na BODIVA, a fotografia é paradoxal: a UNITEL ainda vale menos no mercado do que no momento da OPV, mas movimenta mais atenção, negócios e liquidez do que qualquer outro título accionista.
Escrito por
Redação Clube De Valor