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TAAG PODE TERMINAR O ANO COM PREJUÍZOS DE 210$ MILHÕES

Por Redação Clube De Valor · 09/09/2026 · 6 min de leitura
TAAG PODE TERMINAR O ANO COM PREJUÍZOS DE 210$ MILHÕES

A TAAG – Linhas Aéreas de Angola poderá encerrar 2026 com um prejuízo de 210 milhões de dólares, segundo uma previsão atribuída ao Presidente da Comissão Executiva (PCE), Miguel Carneiro, num quadro em que a companhia aérea de bandeira enfrenta simultaneamente baixa disponibilidade da frota, elevados compromissos financeiros e uma operação ainda distante dos níveis de eficiência esperados.

A dimensão do problema torna-se mais evidente quando colocada numa perspectiva histórica: desde 2012, a TAAG terá acumulado cerca de 1,5 mil milhões de dólares em prejuízos, de acordo com números divulgados por Armindo Laureano, director do Novo Jornal, em entrevista à Rádio MFM. O dado coloca a transportadora no centro de uma das questões mais persistentes das empresas públicas angolanas: quanto capital é necessário injectar até que uma empresa estratégica consiga gerar resultados sustentáveis?

A previsão para 2026 surge depois de a TAAG ter fechado 2025 com um resultado líquido negativo de 144,6 milhões de dólares. Nos últimos dez exercícios, entre 2016 e 2025, a companhia registou lucros apenas uma vez, em 2022, quando apresentou um resultado positivo de cerca de 500 mil dólares.

Mas o problema não está apenas no resultado líquido.

Segundo dados publicados pelo Expansão, a TAAG terminou 2025 com aproximadamente 738 milhões de dólares em contas a pagar e outros passivos, dos quais cerca de 551 milhões correspondiam a responsabilidades com fornecedores. Para uma companhia que facturou 437 milhões de dólares no mesmo exercício, a dimensão das obrigações financeiras evidencia a pressão existente sobre o balanço.

QUASE METADE DA FROTA NO CHÃO

A fragilidade financeira é acompanhada por um problema operacional igualmente relevante.

Miguel Carneiro terá admitido que 45% da frota da TAAG se encontra actualmente no chão. O próprio responsável terá comparado o indicador com os padrões da indústria, observando que uma companhia aérea já enfrenta problemas quando cerca de 8% da sua frota está indisponível.

A consequência é directa: menos aeronaves disponíveis significam menor capacidade de transporte, menor utilização dos activos e maior dificuldade para diluir custos fixos.

O PCE também terá apontado problemas no turnaround time, isto é, no período necessário para preparar uma aeronave entre a chegada e a partida seguinte. Na operação da TAAG, determinados tempos de rotação estarão muito acima dos padrões pretendidos.

A situação, contudo, não é estática. Num balanço divulgado no início de Setembro, a companhia informou que cinco aeronaves foram recuperadas e regressaram ao serviço, enquanto o programa de transformação registava 53% de execução. A TAAG informou ainda ter gerado 19,2 milhões de dólares de cash flow operacional no primeiro semestre e ter ficado 25,7 milhões de dólares abaixo do orçamento de despesas.

Ou seja, há sinais de recuperação operacional, mas ainda insuficientes para eliminar o desequilíbrio financeiro.

"NENHUMA ÁREA ESTÁ A CUMPRIR AS EXPECTATIVAS"

A dimensão da transformação necessária é sintetizada numa declaração particularmente dura atribuída a Miguel Carneiro:

"Nenhuma área da TAAG está neste momento a cumprir com as expectativas."

A afirmação revela que o problema não é apresentado apenas como uma questão de frota ou de endividamento. Trata-se, na perspectiva da actual gestão, de uma transformação transversal da organização.

A companhia lançou o programa PALANCA, acompanhado por medidas de controlo e redução de custos. Entre as medidas anunciadas estão a suspensão temporária de contratações externas e promoções, maior controlo das despesas e viagens de serviço e restrições temporárias em incentivos e aquisição de bens e serviços.

Em paralelo, a TAAG prevê reformar cerca de 300 trabalhadores, equivalentes a aproximadamente 10% da força de trabalho, enquanto reforça áreas técnicas através de contratação e formação.

O SINDICATO E O RISCO DE DEMISSÕES

A reestruturação da TAAG também está a gerar tensão nas relações laborais. O sindicato dos trabalhadores chegou a anunciar uma greve para 1 de Setembro, posteriormente retirada após negociações com a administração.

Ao mesmo tempo, a companhia prevê reformar cerca de 300 trabalhadores, aproximadamente 10% do seu efectivo. Embora a administração enquadre a medida como reforma e renovação do quadro de pessoal, o processo alimenta preocupações sobre eventuais demissões e redução de postos de trabalho.

Num contexto de prejuízos, pressão financeira e necessidade de redução de custos, a questão laboral surge como mais uma frente crítica da transformação da TAAG.

O ESTADO CONTINUA A CAPITALIZAR A COMPANHIA

A recuperação da TAAG continua, entretanto, a depender de recursos públicos.

Em Abril, o Ministério das Finanças procedeu à emissão de 170 mil milhões de kwanzas em Obrigações do Tesouro, equivalentes a cerca de 170 milhões de dólares, para a capitalização da companhia no âmbito do plano de sustentabilidade financeira e transformação para 2026. A operação foi estruturada como dívida pública posteriormente transferida para a TAAG.

Este ponto é particularmente relevante: a companhia está simultaneamente a receber novos investimentos, renovar a frota e expandir a rede, enquanto acumula prejuízos e obrigações financeiras elevadas.

Em 2025, a TAAG transportou 1,26 milhões de passageiros, operou 26 destinos e gerou 437 milhões de dólares em receitas. Ainda assim, terminou o exercício com 144,6 milhões de dólares de prejuízo.

O desafio, portanto, não parece ser simplesmente fazer a TAAG crescer. É fazer com que o crescimento se converta em eficiência, geração de caixa e rentabilidade.

A TRANSFORMAÇÃO QUE ANGOLA PRECISA

É precisamente neste ponto que ganham relevância as palavras do ministro da Economia e Planeamento e das Finanças, Ricardo Viegas D'Abreu, no artigo "TAAG que Angola precisa constrói-se com resultados".

A ideia central é que uma TAAG estratégica para Angola não pode ser avaliada apenas pelo número de aeronaves, rotas ou passageiros transportados. A companhia precisa demonstrar resultados capazes de sustentar a sua própria operação e reduzir progressivamente a dependência de recursos públicos.

A transformação, portanto, terá de ultrapassar a simples renovação da frota.

A companhia precisa de resolver problemas de produtividade, manutenção, utilização dos activos, controlo de custos, gestão financeira, receitas, dívida e eficiência operacional.

E existe ainda uma questão estratégica: a privatização parcial da TAAG está prevista no programa de privatizações de Angola para 2026.

Neste contexto, uma empresa que pode terminar o ano com 210 milhões de dólares de prejuízo, depois de acumular cerca de 1,5 mil milhões de dólares em perdas desde 2012, entra no processo de transformação com uma pergunta inevitável:

quanto vale uma companhia aérea estratégica que ainda precisa de capital público para sobreviver e, ao mesmo tempo, precisa de provar que consegue tornar-se financeiramente sustentável?

A resposta dependerá menos da dimensão da frota e mais da capacidade da nova gestão de transformar investimento em resultados.

Porque, para a TAAG, o verdadeiro desafio de 2026 não é apenas voar mais.

É deixar de perder.

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